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Entrevista com Mary Lawlor e Andrew Anderson

Mary Lawlor e Andrew Anderson

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Da mesma forma que a Anistia Internacional e a Human Rights Watch, a Front Line Defenders é uma organização internacional com sede no Norte Global que trabalha na defesa de direitos humanos ao redor do mundo. No entanto, ao contrário de outras grandes ONGs de direitos humanos, a principal função da Front Line não é documentar ou expor violações de direitos humanos em si, mas oferecer apoio prático aos defensores de direitos humanos em risco que trabalham nos âmbitos local e nacional. Como afirma o vice-diretor da Front Line, Andrew Anderson, a posição da organização não é apenas uma questão prática, mas também filosófica. Para a Front Line, os defensores de direitos humanos que trabalham nos âmbitos local e nacional são quem realmente gera mudanças. “É o defensor de direitos humanos que melhor sabe o que ele precisa. Eles também são os maiores especialistas na situação que estão enfrentando e no contexto local que eles estão tentando melhorar. Então, por que tentar se intrometer, em vez de apoiá-los para que possam fazer o trabalho deles?”, pergunta Mary Lawlor, diretora da organização, em entrevista concedida à Conectas no último mês de junho.

Ex-diretora do escritório da Anistia Internacional na Irlanda, Mary Lawlor criou a Front Line Defenders (International Foundation for the Protection of Human Rights Defenders, no original em inglês), em Dublin, em 2001, para “literalmente tentar proteger os defensores para que eles pudessem fazer seu trabalho sem perseguição”. A decisão de fundar a organização ocorreu depois que ela participou de uma cúpula sobre defensores de direitos humanos e percebeu que não havia nenhuma organização dedicada especificamente à proteção dos defensores de direitos humanos em risco. “Eu não estava tão interessada nos defensores de direitos humanos que trabalhavam com direitos humanos sem correrem quaisquer riscos, mas naquelas pessoas extraordinárias que têm esse tipo especial de coragem, que estavam trabalhando sob grande risco para melhorar a vida de outras pessoas”, diz ela. “Não havia grandes ideais por trás disso. Nosso principal objetivo era fornecer suporte prático e ininterrupto aos defensores de direitos humanos quando eles mais precisassem”.

O trabalho da Front Line Defenders consiste em apoiar os defensores de direitos humanos em situação de risco, proporcionando-lhes o que eles mesmos dizem que precisam para melhorar sua segurança e capacidade de desempenhar os seus trabalhos. A organização, que tem uma linha de telefone de emergência 24 horas em árabe, inglês, francês, espanhol, e russo para defensores de direitos humanos, oferece subsídios financeiros para medidas urgentes de segurança, realocações temporárias, apoio médico e psicossocial e outros serviços que os defensores podem precisar. A Front Line também faz advocacy internacional e oferece networking e oportunidades de treinamento aos defensores de direitos humanos.

Nesta entrevista, Anderson e Lawlor falam da origem da Front Line Defenders, da possível tensão entre as grandes organizações internacionais e as organizações locais “cada vez mais sofisticadas” e influentes, bem como da dificuldade de mensurar o impacto no campo de direitos humanos.

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Conectas Direitos Humanos • Durante a abertura da última Plataforma de Dublin, em 2013, você disse que o principal papel das organizações no Norte é ajudar a apoiar o trabalho dos defensores que trabalham no âmbito local – não tentando definir a agenda, mas apenas apoiando o trabalho deles. Você pode falar um pouco sobre como chegou a essa conclusão, uma vez que você veio de uma organização internacional grande como a Anistia, e também sobre o que motivou essa transição – deixar a Anistia para fundar a Front Line?

Mary Lawlor • A razão de eu fundar a Front Line Defenders foi porque queríamos trabalhar com defensores de direitos humanos em risco. Os defensores de direitos humanos em situação de risco são, em nossa opinião, as pessoas que ajudam a construir sociedades pacíficas e justas. Eles são agentes de mudança social. Além disso, acredito que eles são as pessoas mais incríveis, eles são aqueles que estão dispostos a arriscar sua segurança e, em muitos casos, suas vidas, não para si mesmos ou para suas famílias, mas para os direitos de seus concidadãos. Para mim, isso sempre foi uma espécie de causa muito motivadora e inspiradora.

Como você disse, eu vim de uma grande organização internacional, que tem sua própria maneira de fazer as coisas. (Quando eu trabalhava na Anistia), evidentemente havia um grande número de membros internacionais, bem como as Reuniões do Conselho Internacional (ICMs, na sigla em inglês), onde tudo era debatido. No entanto, o trabalho do escritório [irlandês] era basicamente mobilizar indivíduos para atuar em questões de violações de direitos humanos ao redor do mundo, onde quer que elas estivessem acontecendo, de acordo com quais fossem as prioridades da Anistia naquele momento, seja uma determinada campanha ou tema ou algo parecido.

Com a Front Line Defenders nós só queríamos tornar mais fácil e seguro que os defensores desempenhassem o seu trabalho, prestar apoio a eles da melhor forma que pudéssemos, já que, naquela época, embora houvesse organizações que trabalhassem com os defensores de direitos humanos, nenhuma concentrava todos seus esforços nos defensores de direitos humanos em risco ou buscava ouvir deles o que eles achavam sobre o que precisavam para sua proteção. E esse sempre foi o nosso modus operandi.

Tudo o que temos feito na Front Line Defenders, desde que começamos, foi a pedido dos defensores de direitos humanos. É o defensor de direitos humanos que melhor sabe o que ele ou ela precisa. Eles também são os maiores especialistas na situação que estão enfrentando e no contexto local que eles estão tentando melhorar. Então, por que tentar se intrometer, em vez de apoiá-los para que possam fazer o trabalho deles? Nós sentimos que este era o nosso dever.

Conectas • E, pessoalmente, como é que você teve a ideia de fundar a Front Line e como foi a sua decisão de deixar a Anistia depois de tantos anos para fazer isso?

M.L. • Eu estava na Anistia por um tempo muito longo. Estava no conselho há 14 anos e, posteriormente, na presidência do conselho por quatro anos. Então, decidi sair, e um ano depois me inscrevi para ser diretora e assim permaneci por 12 anos. Então, em 1998, houve a Conferência de Paris sobre Defensores de Direitos Humanos, que foi realizada como uma iniciativa conjunta entre a Anistia Internacional, FIDH, France Libertés – Fondation Danielle Mitterrand e ATD Quart Monde, e eu participei dela. Eu não estava tão interessada nos defensores de direitos humanos que estavam trabalhando com direitos humanos sem correr quaisquer riscos, mas naquelas pessoas extraordinárias que têm esse tipo especial de coragem, que estavam trabalhando sob grande risco para melhorar a vida de outras pessoas. Desta forma, foi na conferência realmente que a ideia surgiu pela primeira vez.

E eu conhecia uma pessoa rica, então entrei em contato com ela com a ideia de tentar oferecer proteção aos defensores de direitos humanos em situação de risco, para que eles pudessem desempenhar seu legítimo trabalho. Recebi 3 milhões de euros desta pessoa para criar a Front Line. Então, tudo funcionou muito bem! E tive muita sorte e recrutei Andrew Anderson, da Anistia. Andrew era o coordenador de campanhas do secretariado internacional, tinha vasta experiência, havia se envolvido muito na Conferência de Paris e conhecia o tema dos defensores de direitos humanos muito bem. Ademais, Andrew é um grande estrategista, então tive muita sorte por ele ter aceitado vir trabalhar na Front Line Defenders.

Conectas • Mas você acha que ainda há um papel para as grandes organizações internacionais?

Andrew Anderson • A questão inicial, como dito pela Mary, é que as pessoas que fazem a contribuição mais significativa à efetivação de direitos humanos em todo o mundo são aquelas que trabalham nos âmbitos local e nacional. E o trabalho da Front Line é dar apoio à segurança e proteção dos defensores de direitos humanos que trabalham nos âmbitos local e nacional. Essa é uma questão prática, mas também filosófica: nós acreditamos que eles são as pessoas que realmente fazem a diferença no tocante à promoção de direitos humanos.

É claro que, historicamente, ONGs internacionais trabalharam muito e deram uma grande contribuição em termos de definição de normas internacionais e ao fazer campanhas sobre questões de direitos humanos em países sobre os quais não se tinha informações. O modelo tradicional da Anistia Internacional e da Human Rights Watch era o de documentar e expor violações de direitos humanos em países ao redor do mundo nos quais as pessoas desses países não podiam se pronunciar em segurança, seja porque elas viviam em ditaduras na América Latina ou em antigos países comunistas no Leste Europeu ou em outros regimes.

Acredito que o desafio dessas organizações agora é que cada vez mais organizações de direitos humanos do Sul Global têm espaço para falar sobre direitos humanos em seus próprios países, e cada vez mais querem se autorrepresentar em organismos regionais e internacionais. Portanto, há uma sobreposição ou uma potencial tensão entre as organizações de direitos humanos crescentemente sofisticadas que trabalham nos âmbitos local e nacional e nomes como a Anistia e a Human Rights Watch e outras organizações internacionais de direitos humanos. Uma das respostas da Anistia a essa questão tem sido a de estar mais presente em diferentes regiões para tentar trabalhar conjuntamente com organizações de direitos humanos no âmbito nacional e de certa forma no âmbito regional. Você pode entender por que essas organizações estão caminhando nessa direção. No entanto, parece haver desafios em termos de cooperação entre essas organizações, em relação ao espaço para o financiamento, interesse da mídia, representatividade e assim por diante.

No entanto, eu não gostaria de dizer que o que X está fazendo é errado ou que o que Y está fazendo é certo. Acredito que há um papel para as organizações internacionais de direitos humanos, mas acho que elas deveriam ser cuidadosas com sua interação e responsabilidade sobre os ativistas de direitos humanos que trabalham nos âmbitos local e nacional.

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Conectas • Como vocês decidem em quais regiões concentrar seu trabalho? Vocês têm uma cota para as questões ou para as regiões? Como isso funciona? E como vocês incorporam as demandas dos próprios defensores em seus programas?

M.L. • Possuímos um alcance global, que é o que nós almejamos. Evidentemente possuímos planos estratégicos regionais de ação para diferentes regiões, nos quais tentamos identificar quais são as tendências, riscos que os defensores de direitos humanos estão enfrentando, etc. Mas se um defensor de direitos humanos entra em contato conosco em busca de assistência, nós a oferecemos. Não dizemos: “Veja bem, você está fora de nossa região ou país ou de qualquer conjunto de países que priorizamos”. Tentamos ter expertise sobre os países conforme eles se tornam mais opressivos, mas não temos um país ou conjunto de países ou uma região geográfica em que nos concentramos.

O programa que se desenvolveu ao longo do tempo tem sido aquele em que nós tentamos fazer pesquisas sobre quem são os defensores de direitos humanos em situação de risco, onde eles estão, quais os riscos que enfrentam, especialmente grupos marginalizados, tais como mulheres, LGBTI, grupos indígenas e aqueles que trabalham com direitos econômicos, sociais e culturais, bem como direitos civis e políticos. Esse é o panorama mais amplo.

E, em seguida, a primeira coisa que fazemos é oferecer subsídios financeiros aos defensores de direitos humanos em risco que precisam tomar medidas de segurança. Pode ser qualquer coisa: assistência jurídica para se defender de uma acusação legal ilegítima ou difamatória, etc.; tratamento médico, caso alguém tenha sido ferido; guarda-costas desarmado; dinheiro para comprar um sistema de vigilância por televisão em circuito fechado (CCTV, na sigla em inglês), construir muros para tornar um escritório ou uma casa mais seguros ou para adquirir telefones celulares ou laptops para que as pessoas possam se comunicar. Frequentemente, pagamos aconselhamento psicossocial, pois o estresse é absurdamente terrível, especialmente para as mulheres defensoras de direitos humanos que enfrentam questões como violência sexual e tudo mais.

O segundo passo que tomamos é o advocacy. Tentamos fazer muito advocacy na ONU. Tivemos uma pesquisa de avaliação independente com os defensores de direitos humanos para os quais tínhamos prestado assistência em 52 países, e o advocacy internacional estava em uma posição de destaque na lista de prioridades deles. Os defensores gostam de ter seus casos analisados. Levamos todos os casos ao Relator Especial da ONU para defensores de direitos humanos. Há anos possuímos um estagiário no escritório do Relator Especial da ONU para os defensores de direitos humanos. O estagiário fica conosco por três meses para ser treinado e depois é enviado para o escritório do Relator Especial da ONU por seis meses e, em seguida, volta para o nosso escritório. O programa tem elevado a capacidade do escritório de assumir mais casos. Também possuímos um estagiário no escritório do Relator Especial para os Defensores de Direitos Humanos na Comissão Africana, para que todos os casos na África sejam encaminhados também à Comissão Africana. Depois que fizemos um lobby bem-sucedido com a Presidência Irlandesa da União Europeia para a adoção das Diretrizes da UE sobre Defensores de Direitos Humanos, e elaboramos o rascunho do projeto de consulta, criamos um departamento focado na EU para acompanhar a implementação das diretrizes.

Em terceiro lugar, vêm as oportunidades de treinamento, que surgiram, mais uma vez, a pedido dos defensores. [Nós oferecemos três tipos de treinamento.] O primeiro é sobre segurança pessoal e avaliação de riscos. O método é treinar pessoas em cada região, para que então elas passem a treinar seus colegas e outras pessoas naquela região. Também temos especialistas em segurança digital regionalmente que trabalham em inglês, francês, espanhol, chinês, russo e português, e agora estamos atingindo outro nível, já que estamos provendo consultores em segurança digital que podem oferecer maior auxílio individual e permanentemente a grupos. Nós também prestamos treinamento sobre as diretrizes da UE duas vezes por ano, reunindo diplomatas e defensores de direitos humanos. Eles têm sessões separadas e, posteriormente, reúnem-se e discutem quais são as possibilidades e os limites – o que os defensores podem esperar e o que os diplomatas estão dispostos a fazer. É uma maneira de fazer com que eles também conheçam uns aos outros.

Também temos programas complementares, como os programas de repouso e descanso para defensores de direitos humanos que estão esgotados mental e fisicamente, passaram por situações de alto risco e precisam de uma pausa, ou para aqueles que querem aperfeiçoar ou desenvolver uma habilidade. Temos programas de bolsas para que os defensores venham e adquiram algum tipo de habilidade, como aprender inglês, ou apenas para que tenham uma pausa da pressão implacável que vivenciam. Temos também um acordo com o governo irlandês para provisão de vistos humanitários temporários de até três meses para pessoas que estão em extremo perigo e precisam sair rapidamente de seus países por um intervalo de tempo. E nós temos a Plataforma de Dublin a cada dois anos. No ano passado tivemos 135 defensores de aproximadamente 90 países. Eles vêm para aprender uns com os outros e compartilhar experiências, adquirir novas estratégias, descansar e também, com sorte, divertir-se pouco. E anualmente damos um prêmio a um defensor de direitos humanos que demonstrou coragem excepcional.

Então é assim que o programa cresceu, com base nas demandas dos defensores. Além disso, desde o início, convidamos dois defensores de cada região para uma reunião de dois dias para dar sugestões ao nosso plano estratégico. Então, essas sugestões, além das sugestões que obtemos por meio dos treinamentos e da Plataforma, tornam-se parte integrante do próximo plano estratégico.

Conectas • Você poderia dar um exemplo de tais contribuições recebidas dos defensores de direitos humanos e incorporadas em seu plano estratégico?

M.L. • No nosso último plano estratégico de 2011-2014, a grande questão que incorporamos a pedido dos defensores era visibilidade, reconhecimento e credibilidade. Desta forma, nós disponibilizamos alguém que era muito bom com produção de vídeos e que criou um canal no YouTube com entrevistas com defensores de direitos humanos. Outra coisa que fizemos foi criar uma página na internet para cada defensor com quem tivemos contato. Estas páginas têm a biografia e uma breve sinopse do defensor e do que ele faz e, caso possível, uma entrevista ou algumas imagens de vídeo – é claro, sempre com a permissão do defensor. Também fazemos uma porção de campanhas on-line, como em Sochi ou na Copa do Mundo – e estas são novas formas de expor os casos de defensores de direitos humanos e associá-los a eventos. Além disso, fizemos anúncios públicos no ano passado na Colômbia, em conjunto com MOVICE (Movimiento Nacional de Víctimas de Crímenes de Estado, no original em espanhol) e isso funcionou bem, por isso estamos fazendo este ano novamente em Honduras e também vamos utilizar a televisão. Trata-se, sobretudo, como uma organização internacional, de tentar amplificar as vozes dos defensores de direitos humanos e fazer com que eles falem por si mesmos, ganhem visibilidade e sejam reconhecidos. Isto, por sua vez, traz a credibilidade e legitimidade de que eles nos falam.

Novamente, cabe destacar que tudo o que fazemos é porque alguém nos pediu para fazermos. Há alguns anos, não havia toda esta questão de dar suporte a famílias. Os defensores nos diziam que não podíamos ignorar as famílias, que tínhamos que dar subsídios financeiros para cobrir o custo de vida das famílias, caso os defensores estivessem presos, ou se houvesse alguma tragédia grave e toda a família precisasse de assistência. É óbvio que não podemos adotar famílias e pagar infinitamente por suas despesas de subsistência, mas realmente damos subsídios de apoio familiar atualmente, o que não costumávamos fazer antes. Essa é outra resposta direta.

O programa se desenvolve quase naturalmente. Uma coisa leva à outra. Uma vez que temos uma estratégia sendo implementada, há outras ideias de um defensor ou o aprofundamento de uma ideia atual, e tentamos e respondemos a isso. Mas, é claro, tudo depende de recursos e dinheiro.

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Conectas • Qual é o principal modus operandi de sua organização? Se você pudesse descrever o DNA de seu trabalho, como seria?

M.L. • Acredito que faz sentido que as organizações tentem estar o mais próximo possível das pessoas com as quais estão trabalhando. Nosso DNA informal é que somos “velozes, flexíveis e furiosos”. O modelo que desenvolvemos foi literalmente tentar proteger os defensores para que eles pudessem fazer seu trabalho sem perseguição. Este era o objetivo. Não havia grandes ideais por trás disso. Nosso principal objetivo era fornecer suporte prático e ininterrupto aos defensores de direitos humanos quando eles mais precisavam disso, quando estavam em risco. Naquela época houve um pequeno hiato antes que as organizações internacionais maiores fossem capazes de começar a oferecer apoio – e se alguém está em perigo, é necessário uma resposta imediata.

A primeira pessoa que ajudamos a realocar temporariamente foi um ativista do Congo. Nós ajudamos uma porção de defensores a se realocar temporariamente. No ano passado, nós ajudamos mais de uma centena de realocações. De qualquer forma, esse ativista tinha estado na primeira Plataforma de Dublin e voltado ao Congo. Ele me ligou um dia. Naquela época, havia apenas dois de nós no escritório – um jovem assistente administrativo e eu. Ele me disse que as autoridades estavam fechando o cerco sobre ele e que ele tinha que sair do país. Ele tinha ido à casa de um amigo, mas achou que eles iriam apanhá-lo onde ele estava. Ele me perguntou o que ele podia fazer, e é claro que eu não tinha a menor ideia sobre o que ele deveria fazer. Ele estava em Lubumbashi e eu sequer sabia onde ficava este lugar, tive que ir procurar no mapa. Então, eu não sabia o que fazer, e isso acabou sendo a melhor experiência de aprendizado para mim naquele momento, pois eu disse a ele: “Converse com seus colegas e tente descobrir qual é a melhor coisa para você fazer, como você pode sair, onde você pode ir e eu vou te ligar de volta em meia hora”. E eu realmente liguei de volta depois de meia hora. Ele tinha falado com um de seus colegas na organização e eles tinham decidido que, caso eles pudessem conseguir dinheiro para alugar um carro, eles poderiam dirigir ao longo de uma região pouco conhecida na fronteira naquela noite. Então eles apresentaram a solução. Mandamos o dinheiro e eles conseguiram recebê-lo, deixaram a cidade naquela noite e dirigiram ao longo da fronteira e tudo deu certo. E é isso que eu quero dizer quando me refiro a prestar apoio aos defensores de direitos humanos, mas eles decidirem o que é melhor para si mesmos.

Conectas • A última pergunta que eu gostaria de fazer é: como conciliar questões urgentes com impactos de longo prazo? A Front Line está mais preocupada com as questões urgentes, mas vocês também fazem algum trabalho de advocacy com os relatores de direitos humanos, possuem um estagiário na ONU e assim por diante. Então, como vocês conciliam esses dois tipos de trabalho e como medem os impactos?

A.A. • Isso é muito complicado. Grande parte do advocacy que fazemos é sobre casos urgentes, por isso ele está como que ligado a pedidos urgentes ou apoio reativo aos defensores de direitos humanos em situação de risco. Desta forma, os casos individuais que submetemos à ONU ou à Comissão Africana ou à Comissão Interamericana ou a qualquer outro órgão são em grande parte um trabalho reativo. Mas nós também fazemos certo lobby em torno de questões mais relacionadas a políticas. Estávamos envolvidos na promoção da adoção pela União Europeia das diretrizes de proteção dos defensores de direitos humanos em 2004, e possuímos um escritório de advocacy em Bruxelas, que visa compelir e pressionar a União Europeia a respeitar os compromissos assumidos. Temos pressionado por uma iniciativa semelhante no contexto da OSCE, Organização para a Segurança e Cooperação na Europa, para tentar fortalecer a prioridade dada e as medidas práticas à proteção dos defensores de direitos humanos na região da OSCE. Nós não trabalhamos dessa forma na região das Américas, pois o Sistema Interamericano foi bem estabelecido desde longa data. Na Ásia, a maioria dos defensores de direitos humanos está um pouco farta com o que está acontecendo com a Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN, na sigla em inglês) hoje em dia, mas inicialmente havia algum interesse em pressionar a ASEAN a ser mais engajada com a questão dos defensores de direitos humanos. Se isso voltar à pauta dos defensores de direitos humanos no âmbito local, então poderemos dar apoio a isto de alguma forma. Mas queremos ver o nosso papel como apoiadores dos defensores na região, em vez de estabelecer prioridades ou uma agenda sobre o assunto.
Mas a maior parte do advocacy que fazemos é feita caso a caso; ele não é voltado a objetivos de longo prazo. E como podemos medir isso? É muito difícil. Nós fazemos o nosso próprio rastreamento e monitoramento do que aconteceu ao indivíduo e à organização, mas você não está realmente medindo se o que você tem feito tem tido um impacto. Você está medindo se, para o defensor de direitos humanos envolvido, a situação melhorou. E isso pode ter acontecido porque os defensores de direitos humanos locais fizeram algo ou pode ser por causa de alguma história que foi veiculada na mídia, e não por causa do que a Front Line Defenders fez. Ademais, pode ser totalmente aleatório que os defensores foram libertados ou que a situação deles tenha melhorado ou o que quer que seja. Esperamos ter contribuído.

Mesmo para uma organização local ou nacional de direitos humanos, seria muito difícil medir se uma ação específica causou um resultado específico, pois os responsáveis ??pela opressão contra os defensores de direitos humanos geralmente não dão respostas sinceras sobre por que eles tomaram certas decisões. Quero dizer, se você analisar a liberação de diversas pessoas na Rússia antes das Olimpíadas de Sochi, houve diversas explicações. Alguns disseram que era um exercício de relações públicas de Putin para tentar desviar a atenção de seu histórico de direitos humanos na Rússia. Outros afirmaram que era porque Khodorkovsky teve algumas conexões financeiras com outra pessoa e teve que concordar com um acordo segundo o qual ele não falaria sobre certos pontos. Você ouve pessoas diferentes dizendo coisas diferentes, e nunca se pode ter certeza absoluta de por que alguém fez algo. Eu acho que, provavelmente, a pressão internacional nos casos do Greenpeace e da [banda] Pussy Riot tiveram algum impacto às liberações nas Olimpíadas, mas não podemos estar absolutamente convictos se isso é o que causou as mesmas ou foram questões domésticas ou outro motivo. É um desafio. Cada vez mais os financiadores querem medir o impacto e pensam que os direitos humanos são como o desenvolvimento. Isto é, caso um poço de água limpa seja perfurado e beneficie cinquenta pessoas, será possível mensurar este impacto. Mas não é assim que as coisas funcionam.

Conectas • Sim, isso é muito difícil. Mas trabalhar com questões urgentes é um pouco mais fácil do que somente com advocacy puro.

A.A. • Sim, e tendo isso em conta, defensores de direitos humanos de 52 países responderam a um questionário anônimo na nossa avaliação independente de 2013, no qual eles disseram que nosso advocacy foi o ponto mais importante – um pouco mais importante do que o suporte financeiro. O feedback mais importante é aquele que recebemos dos defensores de direitos humanos. E muitas vezes eles dizem que o apoio que receberam de nós e de outros fez a diferença. Um defensor de direitos humanos disse que você nunca pode ter a certeza de que o apoio [que demos] teve um impacto no governo, mas sempre há um impacto para o defensor de direitos humanos e seus familiares, porque o ato de solidariedade em si tem um impacto positivo.

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Mary Lawlor

Ex-diretora do escritório da Anistia Internacional na Irlanda, Mary Lawlor é fundadora da Front Line Defenders (International Foundation for the Protection of Human Rights Defenders, no original em inglês). Mary Lawlor tem experiência de cerca de 35 anos com direitos humanos. Possui licenciatura em Psicologia e Filosofia e pós graduação no método Montessori de Ensino e Gestão de Pessoas.

Original em inglês. Traduzido por Fernando Sciré.

Entrevista realizada em junho de 2014 por Maria Brant (Conectas Direitos Humanos).

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Andrew Anderson

Andrew Anderson é diretor adjunto da Front Line Defenders e anteriormente foi diretor do Programa África e do Programa de Campanhas e Respostas a Crises no Secretariado Internacional da Anistia Internacional. Ele também é membro da Diretoria da Tactical Technology e da Suda Social Development Organization (Reino Unido).

Original em inglês. Traduzido por Fernando Sciré.

Entrevista realizada em junho de 2014 por Maria Brant (Conectas Direitos Humanos).