Ensaios

“Em Defesa da Terra”

Erika González

O projeto de um documentário sobre mulheres defensoras

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1.Introdução

O próximo ano de 2021 marcará os cinquenta anos da publicação de As Veias Abertas da América Latina e cinco anos da morte de seu autor, Eduardo Galeano. Como tributo e com o propósito de responder à pergunta de por que a América Latina continua sangrando, decidimos fazer um documentário que será protagonizado pelas histórias de luta e resistência de cinco mulheres da região latino-americana.

“Em Defesa da Terra”, título ainda provisório, é o projeto de um documentário, que será protagonizado por cinco mulheres defensoras do meio ambiente que hoje enfrentam grandes empresas extrativistas (hidrelétricas, mega mineradoras ou construtoras de rodovias no meio da floresta) e até mesmo seus próprios governos para defender os recursos naturais. Isso ocorre numa das regiões mais perigosas do mundo para ativistas, especialmente para quem defende a terra e o meio ambiente.11. “¿Enemigos del Estado? De Cómo Los Gobiernos y Las Empresas Silencian a Las Personas Defensoras”, Global Witness, 30 de julho de 2019, acesso em 24 de julho de 2020, https://www.globalwitness.org/en/campaigns/environmental-activists/enemigos-del-estado/.

As defensoras do documentário mostram até que ponto suas lutas são intensas, pois enfrentam um modelo econômico baseado na desigualdade, na militarização, no racismo e na cultura patriarcal. Em consequência, estão expostas a ataques físicos e verbais, ameaças de morte, criminalização, abuso sexual, tentativas de assassinato e feminicídio.

Embora sejam cinco pessoas que protagonizam o filme, elas poderiam ser cem ou mil e poderiam estar em diferentes regiões do Sul Global. Essas cinco mulheres, apesar de viverem em diferentes países, como Bolívia, Brasil, Colômbia, Honduras e Peru, representam a complexidade da luta pelo mesmo objetivo: defender a Terra, os bens naturais e os direitos de suas comunidades contra a espoliação e a repressão do extrativismo corporativo ilimitado, bem como de seus próprios Estados.

As cinco líderes comunitárias recontam as estratégias ilícitas que as empresas extrativistas usam para se impor nos territórios ao deixarem claro seu caráter racista e patriarcal; e elas explicam, por outro lado, suas próprias estratégias para enfrentá-las.

Marqueza vive na floresta amazônica boliviana; Bertita está no interior hondurenho; Isabel, na cordilheira central da Colômbia; Carolina, na região super explorada de Minas Gerais, no Brasil; Máxima, nas montanhas do Peru. Apesar da distância entre essas mulheres, elas compartilham um objetivo comum: todas lideram a resistência junto com suas comunidades contra a extração abusiva de recursos naturais de suas terras.

A ideia original desse projeto é de Matthieu Lietaert, que, tendo feito The Brussels Business (2012), um documentário sobre o lobby empresarial nas instituições europeias, queria dar visibilidade e denunciar o poder e o abuso das grandes empresas, e como elas afetam as populações do Sul Global.

De minha parte, eu havia coordenado uma rede europeia de ONGs sediada em Bruxelas, chamada Grupo SUR, hoje convertida na Rede de advocacy UE-LAT, onde monitorávamos os impactos das relações entre a União Europeia e a América Latina e denunciávamos como elas eram assimétricas, baseadas principalmente no interesse comercial e no afã de abastecimento de matérias-primas da Europa.

Mathieu e eu, de Bruxelas e do nosso próprio campo de ação, víamos que, cinquenta anos depois da publicação do livro de Galeano, uma de suas principais afirmações continuava válida: “O subdesenvolvimento não é um estágio no caminho do desenvolvimento. O subdesenvolvimento é o resultado histórico do desenvolvimento alheio”.22. Eduardo Galeano Las Venas Abiertas de América Latina (Tres Cantos, Espanha: Ed. Siglo XXI, 2016).

Por esse motivo, queremos mostrar, com o documentário, como o mal denominado “desenvolvimento” no Norte afeta as populações do Sul e a saúde do planeta, e como é importante resistir e agir nos níveis local, nacional e global.

Esse projeto pretende sensibilizar a cidadania global, podendo alcançar um público amplo. Seu alvo são os tomadores de decisão tanto latino-americanos quanto europeus, para pressioná-los a adotar políticas que não afetem ou violem os direitos humanos na América Latina. E também pressionar seus Estados para que participem, promovam e, no momento devido, ratifiquem o Tratado Vinculante sobre Empresas e Direitos Humanos, atualmente em negociação na ONU.33. O Tratado vinculante sobre empresas e direitos humanos atualmente em negociação na ONU será um instrumento internacional juridicamente vinculante que regulará as atividades das empresas transnacionais e outras empresas no que diz respeito aos direitos humanos. O Tratado visa estabelecer um marco internacional no qual as relações entre empresas e os direitos humanos sejam delimitadas e que se consiga preencher as lacunas regulatórias existentes e que levam a muitas das situações atuais de impunidade.

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2.Os desafios do projeto – a questão do financiamento

Quando Matthieu me convidou para participar de seu projeto, vi nele uma ferramenta de sensibilização em massa e de grande utilidade para as organizações que trabalham com direitos humanos. Há um ano e meio, estamos trabalhando nesse projeto, que será financiado principalmente por organizações da sociedade civil e que esperamos que cause um grande impacto nos meios de comunicação e divulgação.

Matthieu e eu optamos por financiar o documentário com contribuições de ONGs e outras organizações da sociedade civil porque queremos também destacar o trabalho que algumas organizações do Norte fazem para defender os recursos naturais e evitar violações dos direitos humanos no Sul. Queremos evidenciar que, embora o Norte Global seja responsável pelos impactos do extrativismo na região latino-americana, sua sociedade civil também contribui para a busca de soluções e a defesa dos bens naturais.

Não foi fácil encontrar o financiamento, mas, no total, quase quinze organizações, principalmente europeias, acreditaram nesse projeto e o cofinanciaram, o que significa que poderão usar o material para suas campanhas de comunicação e advocacy. De nossa parte, não queríamos coproduzir com uma televisão comercial, pois isso limitaria o uso do documentário por ONGs e concederia todos os direitos de uso e distribuição a uma rede televisiva. Ao trabalhar com direitos de copyleft, garantimos que as financiadoras possam fazer uso desse material em suas diferentes atividades sem ter de pedir ou pagar por licenças.

A crise de saúde da Covid-19 nos encontrou no meio de duas filmagens, entre Brasil e Honduras, e nos forçou a fazer uma pausa. Agora, no entanto, estamos mais do que nunca convencidos da importância de divulgar maciçamente os impactos negativos da indústria extrativa na América Latina. Enquanto as pessoas estavam confinadas em suas casas, alguns governos aproveitaram a oportunidade para outorgar concessões, e as empresas, especialmente as mineradoras, estão se promovendo como um agente econômico indispensável para reativar as economias na região.

“Em Defesa da Terra” tem previsão de lançamento para o outono de 2021 e esperamos que, além das organizações coprodutoras desse documentário, participem do projeto, em sua fase de divulgação, todas as organizações que trabalham sobre os mesmos temas, ou seja: justiça ambiental, mulheres defensoras do meio ambiente, alternativas ao desenvolvimento, soberania alimentar e muitas outras.

Erika González

Registro das filmagens de uma das defensoras (Brumadinho, MG).

Erika González - Colômbia

Erika González é bacharel em Jornalismo e feminista. Por cinco anos foi secretária executiva da rede europeia de ONGs Grupo SUR, sendo responsável pela implementação da estratégia de advocacy política da organização. Essa rede fundiu-se recentemente à Rede UE-LAT, que reúne agora quarenta ONGs, movimentos sociais europeus e organizações que promovem a solidariedade entre os povos da América Latina e da Europa.

Recebido em julho de 2020.

Original em espanhol.
Traduzido por Pedro Maia Soares.