Perfil

“Eu luto contra o racismo religioso e contra o racismo ambiental”

Jôice Cleide Santiago dos Santos

Eila Hadssen

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Por Maryuri Mora Grisales

Jôice Cleide Santiago era a única mulher negra e candomblecista da convergência Fé no Clima realizada no Rio de Janeiro. Ela era minoria religiosa em um encontro que, embora com o intuito de ser inter-religioso, terminou sendo majoritariamente cristão.

É de Salvador, mas atualmente mora em Lauro de Freitas – Bahia. Formada em serviço social, também é tecnóloga em redução de danos. Ela se apresenta como candomblecista da Nação Keto, filha do Ilê Asé Opô Alafunbí, “Sou Iaô de Oyá, na minha religião uma criança, uma pessoa muito nova, mas a cada dia que descubro e vivo, essa religião me empodera como mulher e me faz ter esperança de um futuro melhor. Sou mãe da Julyana Omi, também iniciada no candomblé (Juliana das águas) e companheira de um rapaz incrível, filho de Xango. Uma família ligada à espiritualidade”.

No ano passado (2016) Jôice trabalhou diretamente com mulheres de três comunidades quilombolas e com 15 indiretamente, no Projeto Comércio com Identidade desenvolvido na Bahia por Koinonia. Koinonia Presença Ecumênica e Serviço é uma organização com atuação nacional e internacional, uma entidade de serviço sem fins lucrativos composta por pessoas de diferentes tradições religiosas. O objetivo principal de Koinonia é mobilizar a solidariedade e prestar serviços a grupos histórica e culturalmente vulneráveis em processo de emancipação social e política.

“Se pensarmos que na cidade está ruim, quando você chega nessas comunidades [quilombolas] é mais claro que o patriarcado e o racismo estão lá”afirma. Jôice trabalhou com as mulheres quilombolas em Camamu (município brasileiro localizado na Costa do Dendê, litoral sul do estado da Bahia). O seu trabalho consistia em formação temática –

Identidades racial, gênero, economia solidaria e feminista, políticas públicas e INCRA (que é o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária encarregado no Brasil de administrar as terras públicas e responsável pela demarcação e titulação de territórios quilombolas).

A palavra “quilombo” é de origem Bantu e significa “acampamento guerreiro”. Os quilombos eram constituídos majoritariamente por pessoas negras que sobreviveram como escravas nas fazendas e que se refugiaram nesses territórios para viver coletivamente. São territórios de resistência histórica, e atualmente incluem a população negra e rural que se define na relação com sua ancestralidade, com a terra e com práticas religiosas e culturas próprias.

A privatização, o desmatamento e a precarização de territórios ocupados por povos quilombolas e os povos tradicionais nas cidades urbanas ameaçam a subsistência destas comunidades e as empurram à migração, à miséria e ao esquecimento. Ela afirma que sua luta não é só contra a intolerância religiosa, mas contra o racismo ambiental, isto é, contra injustiças ambientais e sociais que recaem sempre sobre os mais vulneráveis.

O trabalho de Koinonia nos quilombos do Sul da Bahia visa fortalecer politicamente as comunidades negras rurais e comunidades de Povos Tradicionais através da formação, do intercâmbio de conhecimento e da incidência política. Para Jôice, a importância deste trabalho é “o resgate cultural e ancestral, porque o cristianismo está entrando forte, de uma maneira extremamente agressiva nos quilombos”. Algumas coisas como banana da terra e abóbora, por exemplo, estão sendo proibidos por alguns pastores por acreditarem que estão associadas diretamente à rituais de matriz africana. Diante disto, ela declara indignada: “o problema é que nossa religião é de pretos. Não é só intolerância, é racismo! ”.

Para Jôice, o racismo ambiental funciona assim: “nós do candomblé precisamos de espaços sagrados para poder fazer nossas oferendas, nossos agrados a nossas divindades. Mas em determinados lugares isso não é mais possível, por causa do desmatamento para o desenvolvimento da cidade com o metrô e as estradas. Cada vez são menos as áreas verdes em Salvador. Isso reduz nosso espaço, nos deixa em locais sem contato com a natureza. As oferendas na rua são quebradas, chutadas. Se você é do candomblé e vai para um espaço fora do seu, automaticamente sofre racismo, sofre uma agressão. É como se você só pudesse sobreviver dentro dos seus territórios. Fora desse espaço não sou bem vista se sou de candomblé. Temos uma limitação de lugar, de território e de prática religiosa”.

No Projeto de koinonia com as mulheres de Quilombo o intuito é o fortalecimento de capacidades financeiras das mulheres, através do comércio feminino. Em Camamu, por exemplo, há muito cacau, muito cupuaçu, mas é um trabalho feito por homens – com ajuda de suas companheiras – e muitas mulheres nunca tiveram dinheiro em suas mãos. Por isso, “quando as mulheres plantam coisas em seu quintal, como coentro e tomate, e podem depois vendê-los na feira, são pequenas ações de empoderamento, permitindo a essas mulheres uma autonomia econômica, ainda que mínima. Elas passam a ter consciência de que podem cultivar e que isso pode ser uma possibilidade de renda; inclusive de que elas podem sobreviver e reger sua família sem depender do marido”, afirma.

Outro trabalho realizado por Joice junto a Koinonia e a Associação do terreiro Alafumbi é o de empoderamento das juventudes negras, principalmente as mulheres negras de comunidades de povos tradicionais em Salvador e Lauro de Freitas. Todas essas iniciativas são mais uma forma de resistência no combate ao racismo religioso e ambiental. Como ela afirma “na esperança de Orixa permitir dias melhores para todos, principalmente para povos de comunidade tradicionais. Tenho fé que Ogum fortaleça nossa caminhada, Ogum ti onan”.

 

 

 

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