Retomando o Espaço Civil

As vidas nas favelas importam

Raull Santiago

Ouvir e valorizar a favela, um caminho para reduzir a desigualdade no Brasil.

Eduardo Amorim

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RESUMO

O texto é um resumo do ativismo de direitos humanos que usa a comunicação independente como ferramenta para disputar narrativas e construir soluções em realidades desiguais e de exploração racial violenta, como as favelas do Rio de Janeiro, em especial o Complexo do Alemão, local desde o qual escreve Raull Santiago, integrante do Coletivo Papo Reto.

Palavras-Chave

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Iniciar esse texto foi bem complicado. Tentei escrever em diferentes momentos e lugares. Escrevi no bloco de notas do celular, por meio da digitação por voz, no computador. Várias tentativas, mas o meu tempo é curto, assim que o texto foi a junção de tudo isso aí.

Meu nome é Raull Santiago, tenho 28 anos e sou morador do Complexo do Alemão, um conjunto de favelas localizado na zona norte da Cidade do Rio de Janeiro. E é sobre esse lugar que vou falar, onde fui criado e onde vivo até hoje. Desde o complexo do Alemão faço uma leitura da situação atual do Brasil, a partir das nossas vivências.

Favelas são locais humildes, de muitas e ricas experiências de vida coletiva. Entre várias favelas e periferias do Brasil, o Complexo do Alemão é o meu lugar. Trata-se de uma favela muito conhecida, que apesar de ser um local incrível, tem sido explorada nos últimos anos na chamada “guerra às drogas”. Com a desculpa do combate ao tráfico de drogas, o governo mobiliza grande parte do seu poder militar contra a população, e nesse processo, muitas pessoas são levadas à prisão ou à morte. Principalmente a população humilde, o povo preto deste país.

Assim, a guerra às drogas é uma ferramenta moderna de controle racial e de manutenção da desigualdade social, pois acontece de forma desigual e cruel nos espaços mais humildes, nas favelas e periferias do Brasil. Nesse contexto, a polícia é a única política pública que chega de forma permanente. É um cenário de muita violência policial, onde acontecem enormes violações de direitos. Mas alguns políticos assim como a grande imprensa insistem em dizer que as favelas são o problema da sociedade brasileira. É sobre essa grande farsa que é construída uma imagem negativa de nós.

Para tentar frear a violência e a desigualdade racial que experimentamos no dia a dia e que se evidencia nas narrativas construídas sobre nós, criamos, junto a nove amigos e amigas o Coletivo Papo Reto. É um grupo que usa a comunicação independente para denunciar a violência, disputar narrativas a partir da nossa realidade, e propor formas de garantir direitos e fortalecer a favela como local de potência, através da ideia de “nós por nós”.

O Coletivo Papo Reto tem basicamente duas vertentes de atuação:

1) Comunicação de Resistência: usando tecnologias diversas para denunciar as violações de direitos cometidas pelo Estado, o objetivo é mobilizar redes e encaminhar denúncias junto a outras instituições públicas e da sociedade civil, tentando reduzir a forma violenta com que somos tratados diariamente.

2) Publicidade Afirmativa: por meio da qual trabalhamos a ideia de “nós por nós”, buscando fortalecer a favela e seus moradores, além de disputar narrativas com a mídia hegemônica que insiste em nos criminalizar, disseminando imagens que nos colocam como problema. Usamos a comunicação para mostrar as potências existentes dentro da favela. Através de ações de rua e programas online, buscamos apresentar um outro olhar sobre nossa realidade.

Atualmente, usando tecnologias como ferramentas para denunciar violações de direitos e violência racial, temos atuado em parceria com uma instituição americana chamada Witness, com a qual temos aprendido sobre segurança online e planejamento da segurança coletiva, além de estarmos experimentando e ajudando a desenvolver aplicativos e tecnologias que possam ser usadas por ativistas, por exemplo como cobertura audiovisual em locais de conflitos, para que as imagens capturadas sejam aceitas como prova judicial.

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Um local em disputa

O Complexo do Alemão foi muitas vezes apresentado como símbolo do poder das máfias do país, mas nunca teve a oportunidade de ser apresentado de maneira positiva, mostrando quanto é um local de pessoas potentes e incríveis. A comunicação independente chega para suprir essa lacuna, expondo a mídia hegemônica como um dos grandes responsáveis por construir esse imaginário negativo sobre a realidade das favelas.

Em 2010, o Complexo do Alemão recebeu um novo modelo de segurança pública inspirado na Comuna 13 de Medellín, na Colômbia, onde há um policiamento presente 24h dentro da favela e onde também foi construído um teleférico, equipamento de transporte massivo de pessoas através de cabos.

Porém, na realidade do Brasil, a presença permanente da polícia é um verdadeiro problema que alimenta o número de confrontos, mortes e violações sofridas pela nossa população. O teleférico do complexo do alemão, que foi construído em 2011, e custou milhões de reais do dinheiro público, foi fechado há mais de um ano, tornando-se um símbolo mais de corrupção, mostrando a gravidade dos casos de roubos cometidos pelo governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral – atualmente preso por corrupção.11. “Cabral é Condenado no Rio a 45 Anos e Dois Meses de Prisão por Três Crimes,” UOL, 20 de setembro de 2017, acesso em 13 de dezembro de 2017, https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2017/09/20/cabral-e-condenado-no-rio-a-45-anos-e-dois-meses-de-prisao-por-tres-crimes.htm.

Por outra parte, em 2007, durante os jogos do PanAmericano, mais de uma dezena de pessoas foi assassinada no Complexo do Alemão. Infelizmente, não foi a primeira vez que grandes eventos no Brasil significaram sofrimento e violação de direitos para a população das favelas e das periferias. Na Copa do Mundo e nas olimpíadas não foi diferente. Remoções e graves violações marcaram esses eventos.22. “Dez Anos Depois da Chacina do Pan, Moradores do Complexo do Alemão Vivem sob Violência Cotidiana da Polícia,” Anistia Internacional, 27 de junho de 2017, acesso em 13 de dezembro de 2017, https://anistia.org.br/noticias/dez-anos-depois-da-chacina-pan-moradores-complexo-alemao-vivem-sob-violencia-cotidiana-da-policia/.

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As contradições do Brasil

O Brasil é um país incrível e de pessoas incríveis. Mas é também muito desigual. Apesar de mais de 54% da população se autodeclarar preta, há pouca representação dessas pessoas nos espaços de influência e de decisão. Além disso, trata-se da população mais assassinada e encarcerada. Atualmente, o Brasil é a terceira maior população carcerária do mundo, com 726.712 pessoas presas em 2016, atrás apenas de Estados Unidos (2.145.100), China (1.649.804), e tendo superado a Rússia (646.085), segundo o Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias, o Infopen.33. “Há 726.712 Pessoas Presas no Brasil,” Ministério da Justiça e Segurança Pública, 8 de dezembro de 2017, acesso em 13 de dezembro de 2017, http://www.justica.gov.br/noticias/ha-726-712-pessoas-presas-no-brasil.

O sistema carcerário é falido e não consegue melhorar. Há pessoas presas que ainda estão esperando um julgamento. Em muitos presídios, por exemplo, falta água e alimento, sendo um espaço onde predomina a violência. Diferente dos países que lideram em relação à quantidade de pessoas privadas de liberdade, e que estão discutindo soluções para tentar reduzir sua população carcerária, no Brasil a população prisional cresce.

Além da quantidade de prisões, um genocídio racial acontece neste país. Em 2016, mais de 60 mil pessoas foram assassinadas, e grande parte dessa população era negra, segundo o Atlas da Violência 2017, lançado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, que também aponta que de cada 100 pessoas assassinadas no Brasil, 71 são negras.

Somente em 2017, de janeiro a agosto, 712 pessoas foram assassinadas pela polícia, segundo o ISP – Instituto de Segurança Pública, a maioria com a justificativa da guerra às drogas. Dessa maneira, a guerra às drogas, enquanto ferramenta de manutenção racista e desigual desse país, continua encarcerando e executando uma juventude potente, inteligente, empreendedora.

É porque vidas nas favelas importam e no intuito de garantir nossa sobrevivência e mostrar que a favela é potência e solução, que o Coletivo Papo Reto segue denunciando os abusos, fortalecendo as pessoas e o lugar, além de tentar se conectar com juventudes das periferias do Brasil, América Latina e do mundo.

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AVANÇOS EM MEIO AO CAOS

Em 18 de fevereiro de 2015, a forma como o Coletivo Papo Reto fez da comunicação uma ferramenta para disputar narrativas e mover ações concretas, foi tema de uma reportagem da revista impressa The New York Times.44. “A mídia não se importa com o que acontece aqui”, foi o título da matéria: Matthew Shaer, “The Media Doesn’t Care What Happens Here.” The New York Times, 18 de fevereiro de 2015, acesso em 13 de dezembro de 2017, https://www.nytimes.com/2015/02/22/magazine/the-media-doesnt-care-what-happens-here.html. Na reportagem se destacava a potência da comunicação independente, isto é, de um celular e de internet nas mãos da juventude da periferia. Ocupamos as páginas de um dos grandes veículos da comunicação hegemônica do planeta para falar de uma nova forma de comunicar, disputar esse imaginário sobre a nossa realidade e assim, desafiar a cobertura pejorativa que a mídia hegemônica do país faz.

Também em 2015 a tv Al Jazeera fez um documentário sobre o trabalho do Coletivo Papo Reto em parceria com a Witness, chamado “A Bigger Brother”.55. “A Bigger Brother,” Al Jazeera, 16 de dezembro de 2015, acesso em 13 de dezembro de 2017, http://www.aljazeera.com/programmes/rebelgeeks/2015/12/bigger-brother-151216102151145.html.

Em 2017, o Coletivo Papo Reto fez parte de uma ação conjunta em favor de moradores e moradoras do Complexo do Alemão que tinham sofrido arbitrariedade por parte de agentes do Estado, a polícia militar do Rio de Janeiro. Desde os primeiros meses do ano, policiais haviam invadido algumas casas e tinham expulsado seus moradores, transforando as moradias daquelas pessoas em uma espécie de base militar ilegal. Estas pessoas que tiveram as casas invadidas procuraram o Coletivo Papo Reto e rapidamente traçamos um plano de ação junto a outras instituições da sociedade civil e do poder público, para tentar resolver este abuso. Foram meses tentando solucionar essa situação. Apesar de graves ameaças, por fim, diante de provas em áudio, fotos e vídeos, conseguimos vencer. Conseguimos que os policiais saíssem das casas e que o major fosse afastado da favela.66. Christiano Pinho, “Defensoria Pública Exige Desocupação do Complexo do Alemão.” Band News, 24 de abril de 2017, acesso em 13 de dezembro de 2017, http://bandnewsfmrio.band.uol.com.br/editorias-detalhes/defensoria-publica-exige-desocupacao-do-compl.

Atualmente, além do Coletivo Papo Reto, integro um projeto nacional chamado #MOVIMENTOS: Drogas, Juventude e Favelas, no qual, juventudes de favelas e periferias do país estão discutindo novas políticas de drogas a partir da questão da violência racial, da desigualdade social e de uma guerra que só acontece entre os pobres. Queremos falar amplamente sobre drogas com a sociedade, através de conhecimentos diversos, focando em garantia de direitos, redução de danos e no fim de uma guerra racista.

Como resultado desse trabalho e no intuito de ampliar a rede de resistência das periferias, tenho participado de diferentes encontros nacionais e internacionais, conhecendo outros movimentos que lutam contra o racismo e contra os efeitos violentos da “guerra às drogas”. Só em 2017 já fui algumas vezes para os Estados Unidos, conheci o movimento negro americano, conversei com grupos como Black lives matter, entre outros. Também fui para Colômbia e Republica Dominicana e tenho rodado muito dentro do Brasil, falando sobre direitos humanos, racismo e principalmente ensinando e aprendendo como usar a comunicação independente e as novas tecnologias para denunciar violação de direitos humanos. Essa experiência tem sido importante para fortalecer o nosso trabalho em rede e fazer parcerias com outros coletivos e movimentos que estão na mesma linha de resistência. Em meio a toda essa correria, também continuo usando o rap e a poesia como forma de expressão dessa luta.

Segue um poema, parte do trabalho que desenvolvo através das palavras.

FAVELA,
um aglomerado de resistências e potências.
Onde o cenário da sobrevivência, faz querermos ainda mais,

VIDA,
Que por aqui é de muita luta, mas em conjunto,
Uma energia forte que faz a cada final de frase dizermos,

ESTAMOS JUNTOS,
E estamos mesmo, não tem rotina,
Sobreviver entre o racismo e a desigualdade é o que nos aproxima,

E o AMOR por cada beco e viela,
Que mantém bombeando o coração chamado favela,
ou pelo sorriso de cada criança que vive nela.

Somos potência e também solução,
Para os problemas só existe uma saída.
Temos que garantir a qualquer custo,
A Favela e Periferia VIVA.

Raull Santiago - Brasil

Raull Santiago é favelado, ativista de direitos humanos pelos direitos da favela e midiAtivista, integrante do Coletivo Papo Reto.

Recebido em outubro de 2017.

Original em português.